CHINA: ARREMATANDO A EUROPA - OLHAR CONSERVADOR

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

CHINA: ARREMATANDO A EUROPA


Por mais de uma década, a China vem comprando sorrateiramente empresas europeias de setores estratégicos, principalmente no âmbito da tecnologia e energia. Sistemas eficientes destinados a bloquear investimentos estrangeiros com base em apreensões de segurança nacional parecem não existir ou simplesmente não estarem sendo utilizados o suficiente. (Imagem: iStock)



 por Judith Bergman

14 de Fevereiro de 2022


Original em inglês: China: Buying Up Europe
Tradução: Delmo Fonseca


Por mais de uma década, a China vem comprando sorrateiramente empresas europeias de setores estratégicos, principalmente no âmbito da tecnologia e energia. Ao que tudo indica, a China está fazendo uso desses bens europeus no sentido de facilitar as ambições do Partido Comunista Chinês (PCC) de se tornar uma potência global, tecnologicamente independente do Ocidente e, em última análise, suplantar os EUA como a superpotência econômica, política e militar do planeta.

A China vem acobertando as aquisições europeias, ostensivamente fazendo de conta que são investimentos comerciais. Ela oculta as empresas estatais envolvidas nos investimentos atrás de "níveis de propriedade, complexas estruturas acionárias e negócios executados por meio de subsidiárias europeias", de acordo com a Datenna, uma empresa holandesa que monitora os investimentos chineses na Europa. Impressionantes 40% dos 650 investimentos chineses na Europa entre os anos de 2010 e 2020, segundo Datenna, tiveram "alta ou moderada participação de empresas estatais ou controladas pelo Estado, incluindo algumas de tecnologia avançada".

A título exemplificativo, quando os chineses assumiram o controle da fabricante italiana de drones Alpi Aviation, a Força Aérea Italiana já tinha revelado a importância estratégica dos drones da Alpi ao usá-los no Afeganistão. Em 2018, uma empresa registrada em Hong Kong, a Mars Technology, adquiriu 75% de participação da Alpi Aviation. As autoridades italianas não tinham nenhum conhecimento da venda e só ficaram sabendo da transação em 2021 e subsequentemente abriram uma sindicância para apurar qualquer irregularidade. As autoridades italianas descobriram que a Mars Technology era só uma empresa de fachada que poderia ser rastreada até duas empresas estatais chinesas. Uma era a China Railway Rolling Stock Corp, a maior fornecedora de equipamentos ferroviários do mundo. O objetivo da aquisição, ao que parece, foi a apropriação da tecnologia de drones da Alpi pela estatal chinesa, que, logo após a venda, começou a ser transferida para a China. "É um caso clássico", salientou Jaap van Etten, presidente da Datenna. "Esta é a estratégia do estado chinês, impulsionada pelo governo chinês."

Mais recentemente, os chineses assumiram a Newport Wafer Fab, a maior fabricante de semicondutores do Reino Unido, também conhecidos como microchips, indispensáveis para aparelhos eletrônicos, de smartphones a armas de alta tecnologia. Em julho de 2021, a Nexperia, ao que consta, uma empresa holandesa, comprou a Newport Wafer Fab. A Nexperia, no entanto, é de propriedade da Wingtech Technology, uma empresa chinesa com estreitos laços com o governo chinês. Segundo a Datenna, 30% da Wingtech Technology pertence a entidades governamentais chinesas. O governo do Reino Unido, não obstante, pareceu não entender a ameaça. A venda, apesar dos protestos do Secretário de Negócios do Reino Unido, Kwasi Kwarteng, foi em frente. Quando o presidente da Comissão de Assuntos Estrangeiros do parlamento britânico, Tom Tugendhat, escreveu que a compra chinesa da fábrica britânica de microchips "representa uma ameaça significativa para a economia e segurança nacional", Kwarteng respondeu que o negócio tinha sido "considerado tim-tim por tim-tim". Somente após uma considerável pressão, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson concordou em realizar uma reavaliação de segurança nacional em relação à venda.

O Tribunal de Contas da Europa, uma instituição da UE que supervisiona as finanças da UE, constatou que é difícil ter uma visão geral dos investimentos chineses na UE devido à falta de dados detalhados, parece que ninguém faz registros.

Sistemas eficientes destinados a bloquear investimentos estrangeiros com base em apreensões de segurança nacional parecem não existir ou simplesmente não estarem sendo utilizados o suficiente. Somente 18 países europeus, entre eles Alemanha, França e Espanha, têm introduzido ou atualizado mecanismos nacionais de monitoramento de investimentos estrangeiros, mas aparentemente nem sempre são utilizados. Desde 2012, a Itália, por exemplo, usou seus mecanismos apenas quatro vezes, dois deles nos últimos 9 meses.

De acordo com a Datenna, o mecanismo de monitoramento de investimentos da Espanha é "uma das estruturas mais rígidas da Europa". Mesmo assim, a China ainda conseguiu fazer grandes incursões no setor energético e nuclear da Espanha.

Em 2020, a China Energy Construction Group Planning and Design assumiu o controle de duas empresas espanholas, a Empresarios Agrupados e a Ghesa, que projetam e constroem usinas nucleares. Acontece que esta empresa, por acaso, está intimamente ligada, por meio da empresa pai, à China Energy Engineering Group, à Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC), uma entidade do governo chinês. A SASAC detém quase 100% das ações da China Energy Engineering Group, a empresa pai do adquirente chinês das duas empresas espanholas que projetam instalações nucleares. A aquisição foi ao que consta uma das maiores aquisições chinesas de empresas espanholas de infraestrutura de todos os tempos. Além disso, também em 2020, a Reuters relatou que a gigante estatal chinesa de energia e infraestrutura, China Three Gorges, concordou em comprar 13 usinas solares espanholas.

As "mais rigorosas estruturas de monitoramento" indubitavelmente não estão contendo as aquisições chinesas.

O que ao que tudo indica ser urgentemente necessário na Europa agora é uma compreensão mais aprofundada da ameaça que a China representa, bem como a vontade política de agir frente a esta ameaça. A tomada de medidas urgentemente necessárias para que se bloqueie dar de mão beijada investimentos que proveem os ativos estratégicos da Europa para as empresas estatais da China, que o Partido Comunista Chinês usa para promover seus objetivos expansionistas.


Judith Bergman é colunista, advogada e analista política, ilustre Senior Fellow do Gatestone Institute.


Fonte: https://pt.gatestoneinstitute.org/18235/china-arrematando-europa

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