O MAL AINDA MAIS BANAL - OLHAR CONSERVADOR

domingo, 24 de outubro de 2021

O MAL AINDA MAIS BANAL




"Vivemos tempos sombrios, 

onde as piores pessoas perderam 

o medo e as melhores perderam a esperança"


Hannah Arendt




Você já parou alguma vez para refletir seriamente sobre a natureza da iniquidade? De início alerto que esse tema é por demais inconveniente, pois nos coloca diante da banalidade do mal. Sobre  o homem iníquo, a tradição judaica simplifica essa questão apresentando-o como uma pessoa que se compraz com a perversidade. Não sem razão, busca sempre uma posição social que lhe confere poder, até ao ponto de se sentir acima de tudo e todos. Para este, nem Deus causa-lhe ameaça. A existência do homem iníquo é a causa dos piores males que assolam o mundo, pois aparentemente nada pode detê-lo. Ele se faz presente nas Altas Cortes, no comando de grandes corporações, instituições financeiras, militares, Casas Legislativas e Poder Executivo. O homem iníquo se alimenta da injustiça, é comparado à serpente quando caminha de maneira sinuosa, nunca de forma retilínea. 

Aliás, o termo iniquidade”, no hebraico, está associado à curvatura”, ou seja, algo que se desenvolve de maneira “torta" no íntimo da pessoa, enquanto “equidade" aponta para o que é reto, justo. Portanto, a justiça seria melhor representada por uma régua em vez de uma balança. Uma amostra de como se comporta o homem iníquo fora dada por Jesus em parábola narrada pelo evangelista Lucas: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava homem algum. Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. Por algum tempo ele se recusou. Mas finalmente disse a si mesmo: Embora eu não tema a Deus e nem me importe com os homens, esta viúva está me aborrecendo; vou fazer-lhe justiça para que ela não venha me importunar. E o Senhor continuou: Ouçam o que diz o juiz iníquo.” (Lucas 18.1-6).

A parábola reforça que o juiz pouco se importava com os homens, não se preocupava com as necessidades dos outros, muito menos com a opinião pública. A viúva, por sua vez, não podendo recorrer a outro juizado, só podia contar com o favorecimento deste homem iníquo. Ao fim ela teve sua causa julgada devido a persistência, sem antes saber que esse fato se deu porque o juiz temia ser agredido. Via de regra todo perverso é no fundo um grande covarde.

O cristianismo, há dois mil anos, busca de todas as formas deter o “espírito" da iniquidade. Porém a religião que tornou o homem mais civilizado, apresentando-lhe a essência da equidade, sofre atualmente um ataque cruel, golpes desferidos por quem deveria defendê-la, o próprio cristão. Ao relativizar o mal, seja flexibilizando valores morais ou adotando práticas progressistas, tem-se naturalizado o niilismo como modus vivendi. Por que, de repente, passou-se a buscar o “nada”, a “cultura da morte”, em vez de afirmar a vida? A resposta está no estabelecimento da cultura da iniquidade. Aos poucos o homem iníquo foi ocupando mais espaço na medida em que a religião cristã se dividia. Vieram os humanistas e deslocaram Deus para a periferia, devolvendo ao homem o status de “medida de todas as coisas”; depois surgiram os iluministas com a proposta de deificação da natureza; os racionalistas com o “tribunal da razão”; os românticos com a fantasia de estetização do mundo e, finalmente, os comunistas para levarem a cabo o reino da injustiça. 

O homem iníquo "envernizou" o conceito de igualdade tornando-o um fetiche. Com isso, todo aquele que rechaçasse as ideias igualitárias seria colocado no limbo dos insensíveis sociais, ou seja, não haveria lugar no mundo para conservadores, que em tese não confundem equidade (justiça) com igualdade. Se a Justiça vista como retidão não serve aos interesses do homem iníquo, por que permitir que pessoas retas ocupem lugares de destaque na administração pública, por exemplo? Por que permitir que pessoas retas tenham o poder de se comunicar livremente? Por que permitir que pessoas retas ocupem os principais postos dos organismos internacionais? Por ser um fetiche, ou feitiço, o discurso de igualdade encanta as almas ressentidas e movidas pela inveja. A iniquidade se tornou pandêmica, de modo que as perplexidades se naturalizaram no mundo todo. Grosso modo, estas poucas linhas apontam para o que a filósofa Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém”, conceituou de Banalidade do Mal”. Nesta obra, Arendt observa que a massificação da sociedade gerou  uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão pela qual  aceitam e cumprem ordens sem questionar. Para a filósofa, o mal  tornou-se banal, e exemplifica o caso de Eichmann, um dos responsáveis pela solução final, não ser visto como um monstro, mas apenas como um funcionário zeloso que foi incapaz de resistir às ordens que recebeu. O que mudou?

No entanto, de 1963 (data em que o livro surgiu) até o tempo presente, pode-se afirmar que o mal recrudesceu ainda mais. As instituições jurídicas há muito se renderam ao fetiche do igualitarismo, optando pela estrada sinuosa em vez de seguir  pelo caminho reto. Com o patrocínio da mídia, que dia e noite cria narrativas enviesadas e comandada por pessoas iníquas, o judiciário tem avançado sobre os defensores da retidão a fim de aniquilá-los. Com exceção do remanescente de magistrados que resistem à sanha igualitarista, tem-se um poder a serviço  da iniquidade. E a cultura avança, desde cientistas que torcem dados estatísticos para validarem os interesses da Big Pharma, jornalistas que defendem a censura para silenciar o adversário, defesa intransigente de uma vacina experimental, banimento sumário  pelas Big Techs dos que ousam questionar, além de prisões arbitrárias sem materialidade dos fatos por quem deveria zelar pela Constituição. Tudo isso seria questionado e medido na "terra da equidade”, mas o homem iníquo tem conseguido naturalizar a ideia de que andar em estradas curvilíneas é preferível ao caminho reto. Tal naturalização tem abarcado a indústria do entretenimento, a moda, o esporte e até mesmo a linguagem. 

Posto isto, pode-se aferir que a falta de vigilância do cristão serviu para fortalecer a soberba do homem iníquo, pois sua natureza covarde sucumbiria ante o medo de ser importunado. Lembre-se do juiz apresentado na parábola: "Embora eu não tema a Deus e nem me importe com os homens, esta viúva está me aborrecendo; vou fazer-lhe justiça para que ela não venha me importunar”. E Lucas completa sua narrativa: "E o Senhor continuou: 'Ouçam o que diz o juiz iníquo’” (Lc 18.5-6). A resposta para a questão “quem pode deter o homem iníquo”? vem da própria Escritura: "Na realidade, o mistério da iniquidade já está em ação, restando tão somente que seja afastado aquele que agora o detém” (2Ts 2.7). Há quem acredite na possibilidade de reversão deste estado sombrio perpetrado pelo homem mau. Será que os cristãos estarão dispostos a agirem como a viúva? 



Um comentário:

  1. Texto formidável! Consegue nos remeter aos tempos bíblicos sem perder o foco contemporâneo, com passeios por Hannah Arendt em seu “Eichmann em Jerusalém”, trazendo à baila o perigo da cessação da dignidade da pessoa humana.

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