RETIRADA DO AFEGANISTÃO ABRE CAMINHO PARA A CHINA - OLHAR CONSERVADOR

sábado, 24 de julho de 2021

RETIRADA DO AFEGANISTÃO ABRE CAMINHO PARA A CHINA


A China ,que faz uma minúscula fronteira de 75 quilômetros com o Afeganistão, há muito tempo cobiça estreitar os laços com Cabul, acima de tudo por conta das ricas, enormes e inexploradas reservas minerais situadas no Afeganistão. Foto: Ministro das Relações Exteriores da China Wang Yi (esquerda), Ministro das Relações Exteriores do Paquistão Xá Mahmood Qureshi (centro) e o então Ministro das Relações Exteriores do Afeganistão Salahuddin Rabbani na Conferência Trilateral de Ministros das Relações Exteriores China-Afeganistão-Paquistão em Islamabad, 7 de setembro de 2019. (Crédito da Foto: AFP via Getty Images)



por Con Coughlin

Original em inglês: Afghan Withdrawal Opens the Way for China

Tradução: Delmo Fonseca



A indecente pressa da Administração Biden em retirar suas forças armadas do Afeganistão não só levanta a perspectiva de entregar de mão beijada o controle do país ao movimento islamista Talibã de linha dura. Também confere à China uma oportunidade de ouro de estender sua influência sobre este importante país estratégico da Ásia Central.


A China, que faz uma minúscula fronteira de 75 quilômetros com o Afeganistão, há muito tempo cobiça estreitar os laços com Cabul, acima de tudo por conta das ricas, enormes e inexploradas reservas minerais situadas no Afeganistão.


Rico em cobre, lítio, mármore, ouro e urânio, a riqueza mineral do Afeganistão foi estimada em mais de US$1 trilhão, recursos que poderiam facilmente tornar o país economicamente autossuficiente se um dia eles fossem operados em toda sua plenitude.


Do ponto de vista da China, o acesso às riquezas minerais do Afeganistão lhe daria imediato abastecimento de minerais valiosos, considerados vitais segundo o objetivo de longo prazo do partido comunista, para que possa ocupar o lugar de maior potência econômica do planeta.


Décadas de conflito incessante no Afeganistão, remontando à invasão da União Soviética em 1979, se traduzem até o momento em parco progresso no tocante à exploração das riquezas naturais do país. A corrupção endêmica que permeia na elite governante do país é mais uma razão para o avanço homeopático no índice do progresso, resultando no que se estima de perda para o governo afegão de cerca de US$300 milhões em relação à mineração a cada ano.


O ex-presidente dos EUA, Donald J. Trump, em determinado momento cogitou desenvolver a riqueza mineral do Afeganistão para ajudar a pagar o custo da coalizão militar liderada pelos EUA, que segundo estimativas custou aos contribuintes americanos entre US$1 a US$2 trilhões nas últimas duas décadas.

Agora, na esteira da decisão do presidente dos EUA Joe Biden de acelerar o ritmo da retirada das forças dos EUA do Afeganistão, há uma crescente inquietação de que a China não tardará em substituir os EUA como potência nº1 neste país atrasado, juntamente com todas as implicações que poderiam ter para a segurança do Ocidente, visto que uma série de grupos terroristas islamistas, como o ISIS, procuram usar o país como refúgio para planejar ataques contra o Ocidente.


O jeito da partida dos americanos, que mostra claramente que eles não confiaram em seus aliados afegãos o suficiente para avisá-los com antecedência de sua partida, demonstra uma preocupante falta de fé entre os EUA e seus aliados, apesar do fato dos dois lados terem sido aliados próximos há quase duas décadas.


Os EUA e outros aliados da Otan, como a Grã-Bretanha, investiram bilhões de dólares em treinamento e equipamento das forças de segurança afegãs para defenderem o país contra a ameaça do Talibã.


Não obstante, a situação no palco dos acontecimentos chegou a um ponto em que, sem o apoio de forças ocidentais, as forças afegãs lutarão bravamente contra um adversário determinado e criativo como o Talibã.


A incapacidade das forças afegãs em proteger o governo democraticamente eleito do país se reflete em números recentes que mostram que o Talibã controla um terço de todos os 421 distritos do país, sendo que o próprio Talibã afirma que controla 85% do país.


Ainda que as alegações do Talibã sejam flagrantemente exageradas, como afirmam observadores ocidentais, está claro que o governo afegão capitaneado pelo presidente Ashraf Ghani se encontra sob enorme pressão em consequência da decisão de Biden de acelerar a retirada, diante das operações de combate dos EUA em vias de terminar dois meses antes do prazo, em setembro, originalmente estabelecido pelo presidente americano.


Conforme o porta-voz do Pentágono, John Kirby salientou no programa "Fox News Sunday" no fim de semana, Washington está "observando com profunda preocupação" os insurgentes do Talibã assumirem o controle de mais e mais territórios.


Com poucas perspectivas realistas de alcançar um acordo negociado entre Cabul e o Talibã nas negociações de paz que estão ocorrendo atualmente em um país do Golfo, Catar, o cenário está montado para Pequim intervir e exercer sua influência em um país que se encontrava na esfera de influência de Washington desde o final dos anos de 1980.


Pequim goza de boas relações com o vizinho Paquistão, onde o carismático primeiro-ministro, Imran Khan já foi apelidado de "Taliban Khan" por apoiar o movimento islamista.


O líder paquistanês também sofreu críticas por ter declarado o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, de "mártir" após ser morto pelas forças especiais dos EUA em seu esconderijo no Paquistão em 2011.


Como parte dos esforços de Pequim de aprofundar e ampliar seus laços com a Ásia Central, Pequim também está concentrando seus esforços na expansão de sua influência no Afeganistão, uma política da qual a China espera colher frutos caso o Talibã atinja seu objetivo de tomar o controle do país inteiro.


Investidas anteriores de Pequim no sentido de estabelecer laços no Afeganistão foram travadas devido à estarrecedora maneira da China de tratar a minoria muçulmana uigur na província de Xinjiang, no noroeste da China. Historicamente os uigures desfrutaram de laços estreitos com o Talibã, vários combatentes uigures foram enviados ao centro de detenção da Baía de Guantánamo em Cuba, após terem sido detidos pelas forças dos EUA no Afeganistão no início da intervenção militar americana de 2001 na esteira dos atentados de 11 de setembro.


Em uma tentativa de melhorar as relações com Pequim, o Talibã se recusou a condenar a perseguição chinesa aos muçulmanos de Xinjiang, declarando que não irá mais abrigar militantes uigures em território sob seu controle.


Além disso, as autoridades chinesas abriram canais extra-oficiais com o Talibã, com o objetivo de jogar uma pá de cal na longa guerra civil do país.


A julgar por sua ardente defesa de sua decisão de retirar as forças americanas do Afeganistão, Joe Biden claramente acredita que é do interesse dos Estados Unidos encerrar seu envolvimento de duas décadas naquele país. Contudo, se a retirada dos EUA meramente abrir o caminho para a China virar a nova potência dominante no Afeganistão, então Biden será o responsável por causar, no que diz respeito ao Ocidente, um desastre estratégico de proporções épicas.


Con Coughlin é o Redator de Defesa e Relações Exteriores do Telegraph e Distinguished Senior Fellow do Gatestone Institute.


Fonte: https://pt.gatestoneinstitute.org/17591/retirada-afeganistao-china

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