OS EFEITOS DA 'ACUPUNTURA IDEOLÓGICA' NA CLASSE MÉDIA - OLHAR CONSERVADOR

quarta-feira, 10 de março de 2021

OS EFEITOS DA 'ACUPUNTURA IDEOLÓGICA' NA CLASSE MÉDIA

Acupuntura Acalma Ataque de Gota



por Delmo Fonseca


Desta vez os revolucionários decidiram agir em silêncio. Diferentemente dos comunistas europeus e latino-americanos, os chineses atuam de maneira discreta, e por isso não menos ameaçadores. Essa revolução silenciosa engendrada pelo Partido Comunista Chinês (PCCh) tem colocado o ocidente de joelhos e, por consequência, causado danos irreparáveis. Não se pode desprezar a força destruidora desta ideologia. A civilização ocidental, hoje, descobre-se sem capital moral para pagar a fatura de sua negligência, pois apostou no fato de que os revolucionários obedeceriam as regras do jogo democrático. Passados 150 anos da publicação do Manifesto Comunista (1848), os conservadores se veem diante do assertivo prognóstico de Edmund Burke: Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada”. 


FALSO DILEMA


Nesse manifesto, Marx e Engels sustentam que “a história do homem é a história da luta de classes”. Seguem: "De todas as classes que hoje se contrapõem à burguesia, só o proletariado constitui uma classe verdadeiramente revolucionária. Todas as demais se arruinam e desaparecem com a grande indústria; o proletariado, ao contrário, é seu produto mais autêntico. As classes médias – o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês – combatem a burguesia para garantir a própria existência como classes médias e impedir o próprio declínio. Portanto, não são revolucionárias, mas conservadoras. Mais ainda, são reacionárias, pois tentam virar a roda da história para trás”. A partir dessa falsa premissa, pressupôs-se que a classe média é o grande impeditivo para o estabelecimento da "ditadura do proletariado”, o que Mikhail Bakunin sarcasticamente denominou de “ditadura sobre o proletariado”. Não se pode negar que em meados do século XIX as dificuldades sociais eram gritantes, contudo Marx não foi o único a observar as discrepâncias entre trabalhadores e empregadores. No mesmo período, o positivismo comteano propôs uma possível harmonia entre essas duas categorias, uma "incorporação social do proletariado na sociedade moderna”, segundo palavras do próprio Augusto Comte. Percebe-se que desde o início a ideologia comunista se nutre de falsos dilemas. 


O filósofo Karl Popper em O realismo e o objetivo da ciência (1987), comenta que "um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os artigos de fundo até os anúncios, provas que consistiam em verificações da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia”. A considerar o ponto de partida dos marxistas ao analisarem a conjuntura política e social, vê-se a atualidade da crítica de Popper. Não faz muito tempo, viralizou nas redes sociais um vídeo em que a filósofa Marilena Chaui vociferava  contra os trabalhadores que supostamente haviam prosperado no governo petista e, por conta disso, abraçado os valores da classe média. Num autêntico arroubo histérico, disse: 


“Eu odeio a classe média. Ela é um atraso de vida, é o que há de mais reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista…” 


“Eu me recuso a admitir que os trabalhadores brasileiros, porque conquistaram certos direitos (…) se transformaram em classe média. (…) A classe média é uma aberração política, porque ela é fascista. É uma aberração ética, porque ela é violenta. É uma aberração cognitiva, porque ela é ignorante…”



CLASSE MÉDIA: O BODE EXPIATÓRIO


Como é típico de todo marxista - e a professora da USP não foge à regra-, tende-se a atribuir ao outro a razão do próprio fracasso. A ideologia comunista já nasceu com defeito de fábrica ao conceber a história do homem como uma história de luta de classes. A prova é que tempos depois, contrariando o próprio Marx, a causa revolucionária se deslocou dos sindicatos para as universidades. No entanto, a classe média permaneceu  como o “bode expiatório” burguês ao considerar moral, propriedade privada e liberdades individuais como valores essenciais. Precisamente esses valores característicos do conservadorismo é que sustentam a civilização ocidental e impedem o “paraíso na terra” preconizado por Marx e Engels em A Ideologia Alemã (1845): "Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de atividade exclusiva, é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar da manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico."


Por se ater à realidade, e aí percebe-se a influência do cristianismo, a classe média abraçou naturalmente os valores conservadores, que desde o princípio foram acusados por Marx de reacionários, de fazerem andar para trás a roda da história. E o que mais impressiona em toda a crítica feita à classe média é que seus críticos, via de regra, são  da classe média. Os proletários, por sua vez, continuam almejando casa própria, plano de saúde e uma boa escola para os filhos. Nos regimes totalitários, por exemplo, para não correr o risco de se transformarem em classe média e adotarem os valores “burgueses”, é preferível que os proletários permaneçam na pobreza e dependentes economicamente dos subsídios estatais. Isto posto, há de se avaliar que a negligência da classe média, tão voltada para si mesma, permitiu que o comunismo armasse uma bomba-relógio em seus fundamentos. Como alertou Burke, quando os bons não fazem nada, permitem o avanço dos maus.



GUERRA À CLASSE MÉDIA 


Os ataques à classe média se tornaram sistemáticos desde a Escola de Frankfurt, tendo seu processo acelerado a partir da década de 50. Até se podia tolerar seu aspecto consumista, mas não seus valores morais, a exemplo da autoridade patriarcal. Anular a autoridade do pai já seria meio caminho andado para a ascensão do feminismo, visto que a lógica marxista da luta de classes também passou a ser aplicada entre os sexos masculino e feminino, e mais tarde foi estendida para brancos e negros, homos e héteros, jovens e adultos, veganos e carnívoros, cristãos e niilistas, progressistas e conservadores tardios etc. Os comunistas levaram a serio a orientação de Lênin em Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1920): “É preciso […] estar disposto a todos os sacrifícios e, inclusive, empregar - em caso de necessidade - todos os estratagemas, ardis e processos ilegais, silenciar e ocultar a verdade”. 


Uma vez solapada a autoridade paterna, demonizado o estatuto do patriarcado e desfigurado a família tradicional, o comunismo com seu capitalismo de Estado, avançou sobre a Igreja. Os inimigos da liberdade sabem que o vínculo da classe média com a fé cristã é visceral, portanto, importa quebrar essa unidade impondo regras draconianas a fim de dificultar a continuidade desse vínculo. O que era uma prática corrente nos regimes totalitários, passou a ser rotina na maioria dos países ocidentais. A cada dia aumenta o número de templos vilipendiados mundo afora. Na China, por exemplo, há uma classe média que atualmente soma 400 milhões de habitantes. Obviamente é uma massa consumidora sem precedentes, todavia esse mesmo contingente é impedido de flertar com valores conservadores, sobretudo a moral cristã. O PCCh exerce um controle ditatorial, de modo que qualquer liberdade individual se configura como concessão do Estado e não um direito fundamental. 


ACUPUNTURA IDEOLÓGICA 


A revolução  silenciosa, à moda chinesa, é mais uma etapa da estratégia comunista de subjugar o mundo e torná-lo um inferno, ou seja, um lugar destituído de valores transcendentais. Não se compreende comunismo chinês sem levar em conta a maneira como Mao Tse-tung, o “grande timoneiro”, desenvolveu sua dialética a partir da inversão de muitas crenças religiosas enraizadas na tradição oriental. Por exemplo: ele adequou à sua dialética o pensamento taoísta baseado nos princípios yin-yang, que apresenta dois aspectos opostos de um elemento. Nessa tradição milenar os opostos são vistos como complementares e interdependentes (ou harmônicos), de modo que dois podem ser tornar um. Porém, o pai do PCCh em Obras Selecionadas de Mao Tse-tung” (1952), descreveu esse princípio como duas forças opostas, em constante conflito mútuo, em que “um se torna dois, dois se tornam quatro”. Para os séquitos de Mao, dentre eles Xi Jinping, a força da contradição se encontra na divisão. Nesse caso, enquanto se busca a unidade interna do partido por meio da lealdade ao líder, implanta-se a divisão no campo adversário. 


Um exemplo claro do método revolucionário chinês diz respeito à forma como o partido manipulou dados de  uma pandemia que desagregou o mundo, mas manteve o comunismo coeso. Por meio de sua ingerência na Organização Mundial de Saúde (OMS), conluio com políticos esquerdistas e forças globalistas que controlam os meios de comunicação, semeou-se um pânico generalizado com a finalidade de acabar com o que ainda resta da democracia liberal, tão cara aos conservadores.  Enquanto o mundo se desesperava com o rápido contágio do vírus chinês, a classe média acostumada a viver distante das disputas políticas, assistia indefesa ao avanço da tirania governamental. Isso se deu em todas as partes. Como um paciente anestesiado, ainda que consciente da movimentação em volta do leito, a classe média se viu sem forças para reagir. E cada vez mais, de forma bovina e acrítica, aceita sem pestanejar a perda de sua liberdades individuais. Já não vê problemas em usar máscara ao volante, mesmo que esteja sozinha no automóvel com ar condicionado; já sofre de abstinência quando lhe falta álcool em gel; já não encara como abuso de autoridade a decisão de ficar trancada em casa. Não sabe a classe média que essa anestesia, aplicada com agulhas bem finas, atende pelo nome de "acupuntura ideológica”, uma versão política da terapia milenar chinesa adotada pelo PCCh. Qual o principal efeito dessa anestesia? Se não for debelada a tempo, o resultado será a naturalização da servidão involuntária. 

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