FRAGILIZAÇÃO E CONTROLE DO SER HUMANO - OLHAR CONSERVADOR

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

FRAGILIZAÇÃO E CONTROLE DO SER HUMANO




 por Marcia Broccart


Partindo de uma liberdade ilimitada chega-se a um despotismo sem limites.

 Fiódor Dostoiévski


  O isolamento, o medo, o desemprego e  a modificação da rotina devido a pandemia têm levado muitas pessoas a queixarem-se de momentos de tristeza profunda,  falta de concentração, esquecimento, irritabilidade e insônia.  Os transtornos mentais nunca foram tão numerosos e tão graves. Angústias de diversas ordens, conscientes ou inconscientes,  estão presentes em todos nós. No entanto, doenças mentais tais como depressão, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico e estresse pós-traumático são hoje mais ampliadas e numerosas. O uso de substâncias psicoativas tem aumentado drasticamente.* Quanto à dependência química, seu  ciclo está cada vez mais difícil de ser interrompido.  Como chegamos até aqui?  

Há uma manipulação em curso e esse artigo pretende mostrar seu pano de fundo, além de evidenciar como a politização de áreas chaves como saúde, educação e costumes vem ceifando vidas e adoecendo pessoas.  A busca pelo controle nunca foi tão nefasta e tão vigorosa. Quando analisamos a dinâmica desse processo e os meios utilizados, descobrimos que a  nova ordem social tem imposto pesadas sanções à humanidade. 


AINDA SOMOS HUMANOS 


Sim, somos humanos.  Seres que vivem e morrem regidos por leis biológicas.  O imperativo genético ao se manifestar em nossa vida emocional nos mostra que nosso corpo exerce poder sobre nós.  Somos reprodutivos e escolhemos parceiros através da seleção sexual.  Somos também territorialistas, por isso temos a exigência de um habitat.  Afinal, o que nos torna humanos?

  Nos últimos anos a REALIDADE BIOLÓGICA tem sido desprezada e nossa história passou a ser contada a partir de narrativas distorcidas,  determinando novas fantasias e mitos a respeito da condição humana. Este  novo estatuto, construído a partir da visada ideológica, perpassa todas as ações sociais. Vale ressaltar que nossos mais nobres atributos são lastreados na  BIOLOGIA e  preservados pela MORAL. Corpo e mente estão intimamente interligados marcando no Homem suas exigências físicas, biológicas, psíquicas e emocionais.  Dai a necessidade dos interditos primevos que limitam seus movimentos pulsionais em direção a dois encaminhamentos: vida e morte, civilidade e bestialidade. Isso define o ser humano, a despeito de sua crescente  DESUMANIZAÇÃO ao tentarem naturalizar a pedofilia, assassinatos de crianças, pornografia etc.,  o que tem suscitado discussões éticas a respeito dessa subversão social.  


ISOLAMENTO PARA FRAGILIZAR 


Somos gregários por natureza e ligados uns aos outros pelo afeto.  Ao considerarmos o comportamento etológico dos seres humanos podemos constatar que o hormônio chamado ocitocina exerce papel relevante nas interações. Esse hormônio cerebral, modulado pelo hipotálamo e armazenado pela hipófise, é que nos predispõe a buscarmos interações e construirmos relações afetivas e duradouras. Sim, nós nos apegamos aos objetos de nossos quereres.  

A ocitocina também é facilitadora das relações mãe-filho, das amizades, da troca de carícias, das palavras doces, dos vínculos duradouros baseados no AMOR-HONESTIDADE-NOBREZA de caráter. Biologicamente, somos interdependentes.  A ocitocina modula a sensação de MEDO e é a responsável pelo desenvolvimento de EMPATIA e APEGO entre nós.  

Vemo-nos por meio dos outros olhares. Isso é bom, pois nos liga, nos interliga, nos religa! Isso nos torna seres humanos melhores.  Conforme a teoria psicanalítica, põe nossa humanidade em ato.  Fica evidente que a modulação desse hormônio é altamente prejudicada quando permanecemos isolados, impedidos de exercitarmos e criarmos novos vínculos. A ocitocina, portanto, é benéfica quando liberada NATURALMENTE pelo organismo através dos nossos afetos.** 

 

A palavra pode unir os homens, a palavra pode também separá-los, a palavra pode servir o amor como pode servir a amizade e o rancor. Livra-te da palavra que pode provocar o ódio.

 Leon Tolstói


Está claro, agora, por que o isolamento é ruim e por que tantas pessoas estão arredias, tristes, irritadiças e mal humoradas?  Por que as brigas e os desentendimentos são mais frequentes? A falta de apego e empatia entre muitos de nós permeia toda a sociedade.  O  narcisismo, fundante de toda doença mental, é crescente. Com ele também crescem o egoísmo, a inveja e a predisposição para fazer o mal. 

Por mais que a cultura crie narrativas e convença a muitos que as ideologias bastam para tecer uma sociedade mais justa e igualitária, nossa REALIDADE biológica sempre se imporá apontando o erro dessa utopia.  Os ideólogos e os engenheiros sociais, por meio de palavras tortas e fantasiosas, estão nos roubando a vida.  Isolar os seres humanos é uma forma engenhosa de torná-los frágeis e vulneráveis, propensos ao MEDO e à manipulação mental. 

Como as águas, as palavras acham caminho. Se as palavras podem nos traçar feridas, ódios, mágoas e até a morte; também podemos utilizá-las  para a cura e preservação da vida.  Neste momento de crise, precisamos abraçar com palavras, usá-las com honestidade, generosidade, compaixão e amizade.  A palavra pode nos ligar, interligar e religar a Deus se for usada para o bem, para o perdão e para a oração.  O apóstolo S. Paulo, por meio de uma boa palavra, em sua carta à Igreja de Éfeso, incita os cristãos a usarem o “capacete da salvação”  a fim de proteger suas mentes. ***


O “EU” EM RUÍNAS 


Já compreendemos que os ideólogos e engenheiros sociais lançam mão da fluidez possível das palavras a fim de criar discursos distópicos e controlar as massas. Dessas narrativas surgem as ditaduras das minorias, o discurso pró-drogas e os eufemismos que travestem e disfarçam a intenção perversa de ações que lhes são convenientes.  Um novo elemento é posto em ação para servir de agente catalizador à OBEDIÊNCIA. 

Com os seres humanos isolados e fragilizados, portanto mais vulneráveis,  o MEDO é estrategicamente introduzido por meio desses “especialistas" em manipulação. O MEDO é uma emoção suscitada por uma situação de perigo, IMAGINÁRIO ou REAL, que provoca respostas psíquicas e fisiológicas desagradáveis, capazes de  paralisar e impedir respostas positivas. Esse estado de ânimo gera sensações físicas como sudorese, desmaios, taquicardia, falta de ar, insônia, irritabilidade, falta de concentração e memória; e essas respostas fisiológicas impõem respostas psíquicas como sensação desagradável de apreensão e insegurança. É quando o individuo passa a sentir  MEDO DA VIDA, e às vezes se torna tão intenso, que o leva à fuga através do suicídio e do surto psicótico.  Podemos dizer, então, que esse  individuo está aos pedaços, sua integridade psíquica foi quebrada, sua alma dilacerada.  Ou seja, o "eu" está em ruínas. É exatamente essa sensação de DESAMPARO que leva o indivíduo a buscar abrigo no Estado, nos “sacerdotes da seita ideológica”, nos sujeitos do “pretenso saber” - mestres, cientistas e doutos -, pois o ambiente propicio à manipulação foi criado. Isolado, com medo, desamparado e propenso à obediência, esse sujeito busca informar-se através das mídias que centralizam o poder de propagação dos discursos hegemônicos, autoritários e fortes, mas que  lhe prometem PROTEÇÃO. 


A CULTURA DA MORTE … DO CORPO 


 A educação tradicional tem muito a dizer sobre a arte de não se ofender. A educação moderna tem muito a dizer sobre a arte de se se sentir ofendido. 

 Roger Scruton


  A cultura da morte usa disfarces e vem destruindo crianças e jovens ao longo de anos.  Tive a oportunidade de observar, primeiramente no Canadá e logo depois na Europa, o fenômeno que desencadeou a diluição do individuo  -  “eu em ruínas”.  

Nesses países de alta renda per capta e de alta cultura, a moral judaico-cristã foi aos poucos sendo substituída por uma moral sem Deus. A população passou a acreditar que a ética poderia ser otimizada sem um lastro espiritual. As escolas passaram a utilizar profissionais, antes apenas voltados ao ensino na “nova escola” ou “escola aberta”.  Nessa nova modalidade pedagógica, a educação passou a ser tarefa do Estado, o responsável a partir de então por introjetar novos valores na gurizada.   Deus passou a ser dispensável para a implantação da nova cultura.  A autoridade dos pais passou a segundo plano e, portanto, não deveriam mais ser obedecidos cegamente.  Os “direitos” das crianças passaram a ser mediados pelo Estado, as disciplinas tradicionais foram substituídas por uma “Educação Integral”.  À criança foram apresentados excesso de direitos, extensas possibilidades, muitas “liberdades”, com poucos deveres, quase nenhuma responsabilidade e nulas obrigações.  Nada mais é obrigatório: "Se Deus não existe, tudo é permitido” (Fiódor Dostoiévski).

Nesse mundo paralelo e fantasioso suas vidas lhes pertenciam.  Crianças e jovens poderiam escolher se queriam morrer ou viver. Em nome dessa “liberdade”  muitos véus foram desfeitos e nada mais era perigoso.  O presente é o que importava e com ele todas as sensações deveriam ser “experienciadas”. Um rol de novas possibilidades surgiu: drogas, álcool, “ideologia de gênero”, distorção da sexualidade, comportamentos abusivos. Viver ou morrer passou a ser escolha legitimada pela escola, por autoridades, pela justiça e pela mídia que se encarregou de mostrar como essa vida livre era encantadoramente tentadora.  O psiquiatra e escritor Theodore Dalrymple registra que as escolas britânicas retiraram de seus currículos a leitura dos clássicos.  Ele nos fala também do aumento da violência entre jovens infantilizados, mal educados, desresponsabilizados de seus atos e “podres de mimados".  A  ordem passou a ser DIVERSÃO por diversão.

Logo começaram a aparecer as modificações corporais, as trocas de sexo, as toxicodependências precoces, os abusivos, a violência e as inadequações.  O divino foi perdido, o sagrado do corpo foi sepultado e o humano poderia apresentar-se não mais como a imagem e a semelhança de Deus, mas a imagem que quisesse ter.  As aberrações passaram a ser pauta. 


REBELDIA 


Sem lastro moral, sem valores e incentivados à rebeldia. O narcisismo passou a ser precocemente estimulado. O mandamento cristão “amar a Deus e ao teu próximo” foi substituído por “ame a si mesmo”.   A doença mental atingiu em cheio crianças e jovens.  Antes raras, agora numerosas e graves, a depressão infantil, os suicídios, as psicoses advindas do uso abusivo de drogas, as automutilações, ainda causam espanto aos profissionais de saude comprometidos com a vida. 

As individualidades foram absorvidas pelos “coletivos”. Fora das tribos, o vazio. A responsabilidade virou moeda de troca e perdeu valor. A felicidade subiu ao pódio. Infantilizados e ressentidos, os “eus”, tão vazios quanto jovens, ficaram desbussolados e em  ruínas.  Tudo isso desembarcou no nosso país com a politização da saúde e da educação. 

O Brasil, que mal começou a exercitar seus músculos e a tentar se firmar econômica, politica e diplomaticamente, já encontra vigorosos oponentes aqui e nos exterior.  A miséria é cultural e resiste.  O fosso moral em que nos encontramos é grande. Abriu-se um abismo profundo onde se manifesta a criminalidade, a corrupção e a imoralidade.  A perversão tornou-se mais disseminada e cruel.  Natureza e cultura estarão sempre interligadas.  Há  uma saída? 

Vivemos presos nos degraus escarpados do tempo. A ilusão ideológica mostra sua face enganosa e tenta levar a humanidade para o abismo do sofrimento. O mundo tal qual o conhecíamos está suspenso, resta-nos recorrer à essência da CORAGEM. Ao vivenciar momentos de escravidão e miséria durante o nazi-fascismo a pensadora Simone Weil se encontrou com o mistério do cristianismo. Foi preciso luta e coragem para se deparar com a Esperança. São dela as palavras que retomo: “só uma coisa de Deus podemos saber: que Ele é o que nós não somos”.

Essas palavras nos remetem à realidade de que somos humanos, sim! Mas, por um Deus criados e justificados pela Fé em Cristo. Contemplando a Cruz, onde nos deparamos com a redenção, podemos, como Simone,  encontrar a chave para o Caminho do ser humano em direção ao Absoluto, onde todas as nossas fragilidades se desvanecem. Isso é humanidade! Isso é realidade! Sim, somos humanos, e jamais poderemos abrir mão de nossa humanidade. 


NOTAS:

(*) As substâncias psicoativas agem no SNC (Sistema Nervoso Central) alterando a função cerebral e causando alterações temporárias ou permanentes na percepção, no humor, na consciência, na cognição, e no comportamento dos indivíduos.

 

(**)  Por conta de tantos benefícios, muitos mitos foram construídos para que a ocitocina possa ser introduzida no corpo humano sob forma suplementar, por exemplo, a utilização de inaladores e/ou comprimidos do hormônio com a promessa de provocar sensações de bem-estar e alegria.  Pesquisas recentes da Neurociência nos dizem que estes suplementos não são eficazes e podem acarretar danos a órgãos vitais como rins e fígado. 


(***) Epístola aos Efésios 6.17  

 


FONTES:


BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.


BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.


BAUMAN, Zygmunt. Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge. Zahar, 2005.


BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge. Zahar, 2008 

BAUMAN, Z. & DONKIS, L. Cegueira Moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida. 1. Ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2014


DALRYMPLE, Theodore. Não com um estrondo, mas com um gemido: a política e a cultura do declínio. São Paulo: É Realizações, 2016.


DALRYMPLE, Theodore. Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico. São Paulo: É Realizações, 2015.


Kaplan HI, Sadock BJ, Grebb JA. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.


LENT, Roberto. Neurociência da Mente e do Comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.


 SCRUTON, Roger. Desejo Sexual:Uma Investigação Filosófica. Vide Editorial. 2016.

2 comentários:

  1. Sorvi cada palavra do seu texto com imenso prazer. Citações perfeitas. Faz-se necessário reter na memória o sentido e a razão primordiais de estarmos aqui.

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    1. Obrigado, Vicente, pela leitura e reconhecimento. Vivemos tempos sombrios e precisamos despertar os que dormem a fim de entenderem como a manipulação tem fragilizado a sociedade. Um abraço! Delmo.

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