ENTRE O ABISMO E A GRAÇA - OLHAR CONSERVADOR

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

ENTRE O ABISMO E A GRAÇA

 

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por Delmo Fonseca


De que futuro nos falam eles,

então, esses esperantes às avessas,

esse escavadores do nada? 


- León Bloy, Le Désespéré 



No atual contexto histórico-social, é bem provável que estejamos à beira de um abismo. E o desafio consiste em resistir às forças centrífugas que atuam nesse espaço profundo. Segundo Nietzsche, “quando você olha longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.” Foi esta a sensação descrita pela personagem de Um sopro de vida, último romance de Clarice Lispector: "Olhar a coisa na coisa hipnotiza a pessoa que olha o ofuscante objeto olhado. Há um encontro meu e dessa coisa vibrando no ar.[…] Deus me perdoe, pois creio que estou divagando sobre o nada”. 


A divagação sobre o nada, embora pareça desnecessária, é fundamental para compreendermos o mundo. Para Bergson, “os filósofos não se ocuparam muito com a ideia do nada. E, no entanto, ela é frequentemente a mola secreta, o motor invisível do pensamento filosófico”. O próprio Nietzsche, ao final do século XIX, preanunciou a ascensão do niilismo (do latim nihil, nada), que em termos gerais, é uma ideologia que considera infundados e destituídos de sentido as crenças e os valores absolutos, ou seja, no nada “tudo é relativo". A pretensão deste artigo consiste em correlacionar as ideias de abismo e  niilismo nietzschianos com o momento sociocultural em que vivemos. Gertrude Himmelfarb, em Ao sondar o abismo: pensamentos intempestivos sobre cultura e sociedade, comenta que Nietzsche escreveu há mais de um século e, desde então, “o abismo ficou mais profundo e mais perigoso, com terrores novos e mais terríveis escondidos no fundo. As feras do modernismo mutaram-se em feras do pós-modernismo - o relativismo em niilismo, a amoralidade em imoralidade, a irracionalidade em insanidade, o desvio sexual em perversidade polimorfa”. 


Ao que tudo indica, a humanidade preferiu contemplar o abismo. Tudo parece virado de ponta-cabeça, a começar pelo empreendimento em desconstruir a moral cristã a fim de se estabelecer uma era pós-moral, isto é, um tempo destituído de interditos e limites éticos. Para tanto, os valores cristãos precisam ser dinamitados em sua base. Mas se engana quem atribui ao pensamento nietzschiano o início dessa desconstrução, a despeito de sua famosa afirmação "Deus está morto e fomos nós quem o matamos". Com esse enunciado o filósofo alemão somente constatou que a partir do Iluminismo, período em que o racionalismo ocupou o lugar da revelação no coração do homem, o espaço das verdades eternas entrou em declínio. E esse foi um dos serviços prestados pelos iluministas ao se voltarem contra a Igreja muitos antes dos ideais da Revolução Francesa. 


Associado a isso vimos no desenrolar da história, em meados do século XIX, o quanto o marxismo levou a cabo a mentalidade revolucionária que se opunha à moral cristã, vista como uma moral burguesa a ser combatida pelo proletariado. A luta de classes também ensejou numa prevalência de uma nova moral, a proletária. No entanto, os revolucionários tiveram que reconsiderar o papel da classe operária que se recusou a seguir o delírio socialista, e transformaram a moral proletária na moral dos intelectuais, que na prática é “terrivelmente” niilista. Temos como exemplo, nas primeiras décadas do século XX, a atuação dos teóricos da Escola de Frankfurt, o “Grande Hotel Abismo”, que viria revolucionar a mentalidade das gerações do pós-guerra.


A partir da Revolução Cultural novas ideologias emergiram desse abismo. Desde o “é proibido proibir” às “questões de gênero”, o mundo vem experimentando a transição de uma comunidade lastreada no cristianismo para uma sociedade autorreferente. A luta de classes marxista foi substituída pelos ideais identitários, de modo que nem mesmo a linguagem escapou desse fenômeno. Em outro comentário, dessa vez sobre Jacques Derrida, Himmelfarb destaca o sentimento de prazer e terror do filósofo desconstrucionista face ao nada: “A queda no abismo da desconstrução inspira-nos tanto prazer quanto medo. Somos intoxicados com a perspectiva de nunca chegar no fundo”. 


Em Assim Falava Zaratustra, Nietzsche assinalou: “Quem vê o abismo, mas com olhos de águia; quem se prende ao abismo com garras de águia: este tem coragem”. Ao refletirmos sobre as propostas do progressismo esquerdista, ouvimos a música dos que cantam felizes enquanto experimentam a nadificação da vida, o que equivale a festejar enquanto se caminha para a morte. Estes se regozijam com o fato de que o mundo se apresenta cada vez mais caótico e distópico, por isso hostilizam e perseguem todo aquele que rechaça a ideia de que "ter fé é dançar na beira do abismo”.


Por que manter-se distante de um precipício que convida a todos a uma queda “prazerosa”? A princípio, porque o abismo oculta a realidade  de sua natureza insaciável. Muitos, por não terem ainda chegado ao fundo, supõem que a queda é melhor do que a ascensão. A cosmovisão cristã, todavia, persiste ancorada nos assuntos do céu, pois compreendemos, conforme sintetiza  Simone Weill, que "todos os movimentos naturais da alma são regidos por leis análogas às da gravidade material. Apenas a graça faz exceção”. A graça é a forca que nos afasta do abismo e nos aproxima de Deus. E quando olhamos longamente para a graça, a graça  também olha para dentro de nós. 



REFERÊNCIAS:


BERGSON, H. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 

HIMMELFARB, G. Ao sondar o abismo: pensamentos intempestivos sobre cultura e sociedade. São Paulo: É Realizações, 2019.


LISPECTOR, C. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999


NIETZSCHE, F. Assim Falava Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.


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