“PALAVRE”, “TODES”, “ILE” E A “MORTE DA FALA”: A LINGUAGEM EM DECOMPOSIÇÃO - OLHAR CONSERVADOR

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

“PALAVRE”, “TODES”, “ILE” E A “MORTE DA FALA”: A LINGUAGEM EM DECOMPOSIÇÃO



por Delmo Fonseca

 

Com o advento da laicização da palavra, os gregos perceberam que não dependiam mais dos deuses para lastrear seus discursos, pois a razão se tornara um pilar seguro. Assim, verdades e inverdades, isto é, discursos falsos e verdadeiros, podiam ser atestados a partir de um mesmo referencial. Ao formular o seu “princípio de não-contradição”, Aristóteles afirma que “é impossível que o mesmo seja atribuído e não seja atribuído ao mesmo tempo a um mesmo subjacente e conforme ao mesmo aspecto”.  Em outras palavras, uma coisa não pode ser e não-ser ao mesmo tempo, o que nos ajuda a compreender a natureza das falácias. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar o que é alegado.  Dessa forma, argumentos que se destinam à persuasão podem até parecer convincentes, mas ao fim são argumentos falaciosos.  Em Refutações Sofísticas, Aristóteles distingue dois grupos de falácias: o primeiro se liga ao uso da linguagem e o segundo é independente de seu uso, o que contemporaneamente pode ser chamado de “falácias formais” e “falácias informais”. Essa distinção visa estabelecer a validade de um raciocínio, daí considerar que um “argumento persuasivo é tido como cogente apenas quando as razões aduzidas tornam racional aceitar a tese para a qual foram oferecidos como suporte”, segundo o filósofo canadense John Anthony Blair.

 

A FALÁCIA DA LUTA DE CLASSES

 

Ao considerar a premissa de Marx e Engels, enunciada no início do primeiro capítulo de O Manifesto Comunista, de que “a história da humanidade é a história da luta de classes”, tem-se um exemplo de um argumento falacioso derivado de uma razão defeituosa. Em Estudos de ideias políticas de Erasmo a Nietzsche, Eric Voegelin denuncia esse disparate ao afirmar que “eles sabiam, desde o colégio, que outras lutas existiram na história, como as Guerras Médicas, as conquistas de Alexandre, o Grande, a Guerra do Peloponeso, as Guerras Púnicas e a expansão do Império Romano, as quais decididamente nada tiveram de luta de classes”. Ludwig Von Mises, economista da Escola Austríaca, em sua obra O cálculo econômico sob o socialismo, diz: “Se você quiser aplicar o termo ‘luta’ aos esforços que as pessoas fazem no mercado, para garantir o melhor preço possível em certas condições, a economia é um teatro de luta permanente de todos contra todos, e não uma luta de classes. O que tem sido capaz de agrupar os trabalhadores para fins de ação comum, contra a classe burguesa, é a teoria da oposição insuperável dos interesses de classe. O que fez uma realidade da luta de classes é a consciência de classe criada pela ideologia marxista. É a ideia que criou a classe e não a classe que criou a ideia.”

Desde sua concepção, o conceito de luta de classes também tem sido alvo de críticas por defender o ódio e a violência. Como afirma Marx em O Capital, “A violência é a parteira de toda a sociedade velha que está prenhe de uma sociedade nova.” Posto isto, segue-se que o marxismo é uma ideologia fomentadora de desonestidade intelectual. No rastro do mesmo argumento falacioso de que “a história da humanidade é a história da luta de classes”, tem-se a famigerada dicotomia entre oprimidos e opressores.    Nas palavras de Paulo Freire, autor da Pedagogia do Oprimido, “Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade referida” (grifo nosso).

 

A LINGUAGEM DOS OPRIMIDOS

 

Paulo Freire, como todo marxista teórico, tornou-se um perito em distorcer conceitos e falsear realidades a fim de justificar um maniqueísmo ideológico. Sendo assim, a “luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor”, tende a fundamentar qualquer disparate das classes oprimidas, as “minorias”, até mesmo a decomposição da linguagem. Qual a relação, então, entre o pensamento paulofreiriano e a linguagem neutra de gênero? Os dois fenômenos atuam a partir da perspectiva dos oprimidos. Se o caminho da libertação consiste em superar a condição de oprimidos, logo, para os partidários da não-binaridade de gênero, é preciso estabelecer um novo capital linguístico, isto é, transportar as estruturas da linguagem para o campo da neutralidade. Em outros termos, a plena inclusão social das pessoas transgênero se dará quando a proposta do filósofo franco-magrebino, Jacques Derrida, se concretizar. Deslocar para um campo neutro o discurso que requer polaridade é matar a fala. Mas não foi esta a proposta de Derrida? “’Morte da fala’ é aqui, sem dúvida, uma metáfora: antes de falar de desaparecimento, deve-se pensar em uma nova situação da fala, em sua subordinação numa estrutura cujo arconte ela não será mais”.

 

A MORTE DA FALA

 

A “morte da fala” que para Derrida era apenas uma metáfora, hoje se impõe como literalidade. Na linguagem neutra, significantes como “ela, ele”, cederam lugar a “ile”. Quanto ao significado, aplica-se a neutralidade, o que equivale  dizer que o gênero não se move nem para um lado nem para outro. Mas o que dizer dos vocábulos “água” e “vento”? Por acaso serão “ague” e “vente”? “Palavra” será “palavre”?  Segundo Derrida a resposta é “sim”: “Não há significado que escape, mais cedo ou mais tarde, ao jogo de remessas significantes, que constitui a linguagem. O advento da escritura é o advento do jogo; o jogo entrega-se hoje a si mesmo, apagando o limite a partir do qual se acreditou poder regular a circulação dos signos, arrastando consigo todos os significados tranquilizantes, reduzindo todas as praças-fortes, todos os abrigos do fora-do-jogo que vigiam o campo da linguagem. Isto equivale a destruir o conceito de ‘signo’ e toda a sua lógica”. O filósofo frisa que sua “teoria da desconstrução” não pode ser confundida com uma teoria da destruição, pois não pretende aniquilar a linguagem e sim decompô-la, desmontá-la.

Esse “jogo” à moda derridiana tem sido a ocupação dos não-binaristas, que para além de qualquer mal-estar, preferem subverter a lógica e negar a realidade. E nessa toada segue o marketing publicitário com sua missão de universalizar o ethos dos ressentidos. Bens e serviços já apresentam em seus rótulos os termos “todes” e “todxs”, por exemplo.  Toda essa história faz lembrar a solução dada por um fazendeiro que ao saber que uma de suas vacas se encontrava infestada de carrapatos, preferiu abatê-la a ter que combater os parasitas. Assim se comportam os linguistas do nosso tempo: preferem a morte da fala a ter que enfrentar a minoria ressentida que não se conforma com o fato de que no mundo real “A” não pode ser “B”, ao mesmo tempo.

 

Referências:

ARISTÓTELES. Metafísica. Madrid:Gredos, 1982.

______. Organon VI (Elencos Sofísticos). São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Col. Os Pensadores)

BLAIR, J. A. (1991), “Qu’est-ce que la logique non formelle?”, in LAMPEREUR, A. (Ed.) (1991).

DERRIDA, J. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2006.

DERRIDA, J. A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. São Paulo: Perspectiva, 2009.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

MARX, K. O capital. 10.ed. São Paulo: Difel, 1985.

Marx, Karl; Engel, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.

MISES, L.V. O cálculo econômico sob o socialismo. Instituto Ludwig von Mises. Brasil: São Paulo, 2012 (1920).

 REALE, G. Metafísica de Aristóteles – volumes 1, 2 e 3. São Paulo: Loyola, 2001.

Voegelin, E. De Erasmo a Nietzsche ESTUDOS DE IDEIAS POLÍTICAS, Lisboa, Ática, 1996.


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