A SEGREGAÇÃO NO MUNDO PÓS-PANDEMIA - OLHAR CONSERVADOR

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A SEGREGAÇÃO NO MUNDO PÓS-PANDEMIA


por Delmo Fonseca


"Existir é resistir, fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza."

José Ortega y Gasset - filósofo espanhol


Em entrevista ao Universa, site do grupo UOL, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz parte da mesma premissa do historiador britânico  Eric Hobsbawm, segundo o qual o tempo é construído pela experiência humana: "Nós usamos o marcador de tempo: virou o século, tudo mudou. Mas não funciona assim, a experiência humana é que constrói o tempo”. Como exemplo desse tempo histórico, Hobsbawm aponta que "o longo século 19 só terminou depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com mortes, com a experiência de luto e a capacidade destrutiva que a guerra gerou”.  Seguindo nesta mesma direção, Lilia Schwarcz afirma: “Acho que essa nossa pandemia marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia. Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites”. 


Observações como estas dão como fato consumado um novo marco temporal, já denominado pelos engenheiros sociais de “mundo pós-pandemia”, algo semelhante ao "Admirável Mundo Novo”, romance distópico escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932.  O mundo narrado por Huxley se passa no ano 632  DF ("depois de Ford”), tempo em que o amor é proibido e o sexo, estimulado. Nesta era a Terra está dividida em dez grandes regiões administrativas e abarca uma população de dois bilhões de seres humanos, com destaque para as variadas castas com traços distintivos manipulados pela engenharia genética. Nos laboratórios são definidos os papéis sociais, isto é, os destinados a obedecer  e os que são preparados para comandar. Num exercício “profético” o romance demonstra as sutilezas do totalitarismo, com fins ao controle absoluto. A narrativa do mundo pós-pandemia, ao que parece, pretende antecipar esse tempo para 2020. 


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As mentes mais atentas têm observado que o mundo está sendo arrastado para a desfuncionalidade, ou seja, um mundo virado do avesso, de sinais trocados. O poeta inglês John Milton em seu poema épico "Paraíso Perdido”, de 1667, nomeia de Pandemonium o centro administrativo do Inferno. Nesse lugar se reunem todos os demônios sob a liderança de Satã. Segundo o dicionário Houaiss, na linguagem corrente, o termo pandemônio expressa “balbúrdia, desordem, caos”, porém numa acepção mais próxima da origem também pode ser empregado com o sentido de “associação de pessoas para praticar o mal…” Ante ao exposto, cabe a pergunta: Em face da pandemia do coronavírus, onde está localizada a sucursal do Pandemonium na Terra? As suspeitas recaem sobre inúmeras agências internacionais, grandes fundações, renomadas universidades e poderosas organizações não-governamentais. Em outras palavras, de onde partem tantas ideias mirabolantes cuja finalidade é adestrar o comportamento da população sob pretexto de segurança sanitária? 


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O que se pode apreender desse período “pós-pandemia” é que há um “marco espacial” para além do temporal, ou seja, pretende-se que daqui por diante as relações interpessoais se deem prioritariamente no espaço virtual. A pandemia, nesse caso, está propiciando aos engenheiros sociais a oportunidade de fazer do mundo um grande laboratório, com experiências variadas. Se de um lado todos ficam confinados em suas casas, a exemplo da Argentina; de outro a rotina segue normalmente, conforme se vê na Suécia. Ademais, aproveita-se também esta oportunidade para restringir as liberdades individuais e fomentar a coletividade, isto é, menos John Locke e mais Rousseau. Há quem diga que. O Pandemonium também tenha várias sedes, de modo que rotativamente funcione nos salões do Partido Democrata americano na primavera, no QG do Partido Comunista Chinês no inverno, na Open Society Foundations no outono e em Hollywood  no verão. O que se constata é que a cada estação um novo manual politicamente correto é oferecido ao mundo. E o distanciamento social tem sido um tema prioritário na agenda dessas reuniões. 


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Por que o distanciamento entre as pessoas serve à desfuncionalidade em vez de tornar o mundo melhor? Sabe-se que a espécie humana é gregária por natureza, logo restringir sua sociabilidade significa condicioná-la ao cativeiro, privá-la da convivência. Os agentes do Pandemonium prometem um mundo mais seguro para todos, o que justifica as medidas autoritárias e a socialização do micropoder, personalizado por seguranças munidos de medidores de temperatura, por exemplo.  No entanto, Benjamin Franklin já alertara que ”aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança”. Não deveria ser normal o cumprimento com cotovelos, abraços revestidos de plásticos, refeitórios escolares com divisórias ou lugares demarcados, assim como deveria ser anormal as filas quilométricas na frente de bancos e hospitais. 



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O distanciamento social, antes uma medida preventiva, tornou-se instrumento de segregação por parte dos defensores do totalitarismo. Nesse diapasão, palavras como “próximo" e “proximidade”, tão importantes em questões éticas, de modo que somente na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento hebraico) ocorre 225 vezes, caminham para o “confinamento" semântico.  As implicações de se viver num mundo projetado por demônios são sempre percebidas a posteriori, quando pouco pode ser feito. Se o século 21 começou de fato em 2020 com o advento da pandemia e, consequentemente, o fim da proximidade, conclui-se que as gerações futuras apenas imaginarão o que um dia significou um aperto de mão ou um beijo. Na prática, o novo mundo que se apresenta em nada perece admirável ao olhos de quem valoriza o encontro e a sociabilidade, pois desde o Gênesis ecoa esta verdade inquestionável: "Não é bom que o homem esteja só”. 

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