TEATRO POLÍTICO - OLHAR CONSERVADOR

terça-feira, 9 de março de 2021

TEATRO POLÍTICO




por Delmo Fonseca


“Em política, até raiva é combinada”
Ulysses Guimarães


O “Brasil não tem povo, tem público”, já dizia o grande Lima Barreto há cem anos. A arguta observação se justificava ante a apatia e indiferença demonstrada pela sociedade de sua época. Lima Barreto sabia que um povo caracterizado pela passividade, “deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”, como reza nosso hino nacional, tem poucas chances de chegar a algum lugar.

O “público” assistiu bovinamente à mudança do regime imperial para o republicano, a política do café com leite, o Estado Novo, o regime militar e a redemocratização.  A mídia profissional se encarregou de manter esse espetáculo e incensar seus atores, de modo que a história política brasileira sempre se valeu da encenação. Quanto aos três poderes da República; o Executivo fingia que executava, o Legislativo fingia que legislava e o Judiciário fingia que julgava. Assim, de tempos em tempos a mudança dos atores se confundia com a mudança da dramaturgia.

E o que mudou? Com o advento da internet o “público” quis ser povo, ou seja, sugerir um novo roteiro e novos atores na cena política, o que desagradou os antigos dramaturgos. Ao examinar a nova peça a ser encenada, descobriu-se que um  roteiro bolivariano  estava prestes a ser representado no Brasil. Ao recusar o papel de expectador, mero público passivo, o povo se deparou com a tirania dos "onze' administradores do teatro. 

E o que fazer com um povo que se cansou de ser público, que observa e critica os atores políticos? A este se responde com mordaça, pois um povo que fala e critica o roteiro e a encenação tende a estragar a festa. Para isso, os dramaturgos do judiciário em conluio com os atores do congresso estão a reafirmar que ao povo compete apenas pagar seus impostos e se comportar como público, sem direito a vaias e comentários, apenas aplausos. O último ato foi a anulação do processo do maior ladravaz que esse país já teve. Afinal, o show tem que continuar.





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