UM BASTA À SENZALA IDEOLÓGICA - OLHAR CONSERVADOR

terça-feira, 2 de junho de 2020

UM BASTA À SENZALA IDEOLÓGICA


por Delmo Fonseca


"Não consigo entender as pessoas que dizem que as minorias devem estar representadas em todos os lugares e, no entanto, ficam chateadas quando há negros representados no movimento conservador" - Thomas Sowell


Para o historiador inglês Christopher Dawson (1889-1970), “cada período da civilização tem certas ideias características peculiarmente suas. Elas expressam a mente da sociedade que lhes deu vida, da mesma forma que o estilo artístico ou as instituições sociais da época. (...) A ideia de Progresso ocupou uma posição desse tipo na civilização moderna da Europa Ocidental. E mais, “a doutrina de Progresso precisa englobar a crença de que todos os dias e de todas as formas o mundo fica melhor e melhor”. Nesse caso, o progressismo é um guarda-chuva ideológico que consegue a proeza de abrigar liberais e socialistas. O que, afinal, os une? A aversão ao Conservadorismo. Antes de avançar nesta questão, vale registrar a perfeita definição de Michael Oakshott (1901–1990) sobre o que é ser conservador: “... é, pois, preferir o familiar ao estranho, preferir o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna”. Em resumo, diz Roger Scruton (1944 – 2020), “o conservadorismo é a filosofia do vínculo afetivo. Estamos sentimentalmente ligados às coisas que amamos e que desejamos proteger contra a decadência”.

É contra esse “espírito” conservador, que os ditos “revolucionários” lutam, embora alguns liberais se autodeclarem “libertários”. Na prática, o que está em jogo é a velha dicotomia realidade x utopia. Para os revolucionários, por exemplo, a realidade é distópica, ou seja, assemelha-se a um estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O que os revolucionários desejam é o seu contrário, a  utopia - um sistema perfeito, um estado ideal -, onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade vigorem em grau máximo, possibilitando paz perfeita e felicidade infinita a todos os cidadãos.
IMAGINAÇÃO
“...a louca da casa”.

Um leitor desatento poderá perguntar: que mal há em imaginar um mundo perfeito? Santa Teresa d’Ávila (1515-1582), mística e Doutora da Igreja, classificou a imaginação como a “louca da casa”. Diferentemente da razão, que busca a ordem das coisas, a imaginação flerta com a liberdade inconsequente, fora do juízo, irresponsável.  Esta imaginação observada por Santa Teresa, portanto, não pode ser confundida com a imaginação criativa e tão necessária ao desenvolvimento humano. Todavia, quando a imaginação sobrepuja a razão, o que se segue é o culto à utopia.  O single "Imagine", composto e  interpretado por John Lennon, ilustra de maneira poética como um estado imaginário pode ser desejado. A canção "Imagine" encoraja o ouvinte a sonhar com um mundo sem conflitos, países sem fronteiras, propriedades privadas, religiões e nacionalidades, isto é, uma sociedade perfeita tal qual também fora imaginada por Karl Marx (1818-1883): “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”.
  
UTOPIA
“...sociedade ideal, justa e igualitária...”

É preciso considerar, portanto, que a ala socialista é ainda mais delirante do que a libertária. Não se pode negar que a cosmovisão socialista é mais poética, mais romântica e, por conseguinte, plenamente utópica. Há registros de que o filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é  o pai dessa visão imaginária, romântica e tão valorizada pelos socialistas. O genebrino Rousseau, embora oriundo de uma família francesa e protestante, teve sua vida marcada por revezes, a começar pela morte da mãe e o descaso do pai. Desde cedo Rousseau buscou saídas que lhe dessem condições de suportar uma vida de abandono. E suas leituras desordenadas, ainda na menoridade, contribuíram para o desenvolvimento de uma existência ancorada mais no reino da fantasia do que na realidade. Não seria exagero dizer que Rousseau também é o precursor da cultura do ressentimento. Em “Devaneios do Caminhante Solitário” tem-se a seguinte lamentação: "Eis-me, portanto, sozinho na terra, tendo apenas a mim mesmo como irmão, próximo, amigo, companhia".

Tempos depois, o inglês Edmund Burke (1729-1797), pai do conservadorismo e crítico da Revolução Francesa (1789), dirá que gente como Rousseau se destaca por "amar a humanidade, mas detestar seu semelhante".  Tal crítica se dá pelo fato de que Rousseau é tido como o mentor espiritual da carnificina que foi a Revolução. Contudo, o ideário de uma sociedade forjada na utopia sobreviveu. Prova disso é que a premissa rousseauniana que afirmava ser a propriedade privada a origem da desigualdade entre os homens, levou os socialistas “utópicos” a sonharem com a criação de uma sociedade ideal, mais justa e igualitária. Estes homens acreditavam na mudança da sociedade por meio da igualdade social e harmonia entre as pessoas, o que dispensava o conflito entre a burguesia e proletariado.  Um dos principais nomes desse movimento foi Robert Owen (1771 – 1858), um reformista social galês, para quem o homem é fruto das circunstâncias: “E quem faz as circunstâncias senão o próprio homem? O mundo não é inevitavelmente bom ou mau, somos nós que o fazemos assim.”  Tem-se nestas palavras o eco da velha máxima do visionário Rousseau: “O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe”. Apesar da grande empatia que o socialismo utópico suscitou, quem poderia denunciar esta grande fraude intelectual?  

REALIDADE
“Os niveladores alteram e pervertem a ordem natural das coisas...”

Na contramão da utopia, dos tantos desejos meramente subjetivos de igualdade, o conservador Burke em Reflexões sobre a revolução na França, afirma que aqueles que tentam nivelar nunca igualam: “Em todas as sociedades, consistindo em várias categorias de cidadãos, é preciso que alguma delas predomine. Os niveladores, portanto, somente alteram e pervertem a ordem natural das coisas, sobrecarregando o edifício social ao suspender o que a solidez da estrutura requer seja posto no chão”. E sobre a questão da propriedade privada, assinala: “A característica essencial da propriedade, resultante de princípios combinados de sua aquisição e conservação, consiste em ser desigual. Por conseguinte, torna-se necessário protegê-la da possibilidade de qualquer perigo, uma vez que excita a inveja e estimula a rapacidade”. Em suma, Burke estava resgatando a primazia da realidade sobre a utopia.

IDEOLOGIA DA DESTRUIÇÃO
“Resistir é ganhar tempo. Precisamos de algo mais que resistir”.

Embora o socialismo progressista tenha sofrido duras críticas, o fato é que esta ideologia obteve ainda mais forças a partir da união entre Marx e Engels. O Manifesto Comunista (1848) conclama os trabalhadores de todo o mundo a se rebelarem contra uma força opressora imaginária, que para eles atendia pelo nome de burguesia. Logo, tudo que dizia respeito à classe burguesa tinha de ser destruído. Não se pode desprezar o valor que os socialistas dão ao conceito de destruição. Para Marx e Engels era preciso destruir a propriedade privada, a família, o regime capitalista e tudo que porventura pudesse ameaçar o processo histórico. Socialistas tardios, como o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, num evento que marcou os 40 anos do PT, soltou a seguinte pérola: “Temos que destruir o governo Bolsonaro. Resistir é ganhar tempo. Precisamos de algo mais que resistir”.  Apenas os que desconhecem a “cultura da destruição” marxista é que ainda se espantam com esse tipo de declaração.

GUERRA IMAGINÁRIA
"...a ideologia do conflito foi reformulada"

Os socialistas progressistas há dois séculos declararam guerra contra a natureza humana. A partir do momento em que se estabeleceu a predominância do coletivo sobre o individual (não confundir com individualismo), a sociedade passou a ser refém da utopia. À semelhança de Rousseau, os socialistas devotaram grande  amor à coletividade e passaram a combater a ferro e fogo qualquer tipo de individualidade. Para quem supõe que esta prática diz respeito a um passado distante, cabe o aviso de que nos dias atuais se tornou ainda mais forte. A luta de classes preconizada por Marx e Engels não vingou, mas a ideologia do conflito foi reformulada. A ideologia progressista ao abarcar espectros da esquerda e direita, fomenta uma guerra imaginária a fim de que o “bonde da história” não venha ser retardado.  Com esse objetivo, os socialistas provocam revoluções e os progressistas liberais as patrocinam. Para tal empreendem um combate ferrenho a determinados valores conservadores, para os quais são direitos naturais e inalienáveis; como a defesa da vida desde a concepção, liberdades individuais (pensamento, expressão, propriedade, culto e ir-e-vir) e o direito natural à autodefesa.
A DITADURA DAS MINORIAS
um conflito cultural enseja um conflito moral

O progressismo, que em Hegel (1770-1830) se configurava como um movimento histórico outrora observado nos conflitos entre nações, se apresentou a Marx como uma luta entre classes, aos nazistas como um conflito entre raças. Uma vez deslocado para o campo cultural, o progressismo suscitou um conflito de ordem identitária  - étnica, linguística, religiosa ou sexual. Ao mesmo tempo, observa-se que um conflito cultural enseja um conflito moral, o que desencadeia em violentos ataques aos cristãos, os "terríveis" opressores.  Em meio a esta guerra cultural, qualquer um que se coloca ao lado do conservadorismo corre o risco de ser fulminado, seja com assassinato de reputação ou por qualquer outro tipo de violência. Tem-se na prática a famigerada “ditadura das minorias”. Como a liberdade de expressão tende a ser suprimida, pois seu valor está ligado aos conservadores, toda e qualquer voz individual que contrarie as vozes progressistas sofre perseguição. Uma mulher só pode expressar seu pensamento se estiver no seu “lugar de fala”, isto é, no coletivo feminista. O mesmo vale para o índio, o homossexual, o imigrante, o artista, o religioso, o professor, o aluno, o jornalista, o advogado e o profissional de saúde. Evidentemente que esse “lugar de fala” é a classe dos “oprimidos”, dos vitimizados pela classe “opressora”. Ao negro, por exemplo, é negado o direito individual de pertencer à ala conservadora. Em outras palavras, há para os progressistas uma incompatibilidade em ser negro e conservador. Logo, é preciso silenciar a voz de qualquer um que ouse pensar por si mesmo, expressar-se fora da condição de vítima social ou oprimido.  Ao homem negro que ultrapassa a fronteira do seu “lugar de fala”, o qual se assemelha a uma senzala ideológica, reserva-se o carimbo de “capitão do mato”, antiga expressão referente aos negros libertos que eram usados pelos proprietários de escravos para capturar os negros fugitivos.
HIPOCRISIA E CINISMO
“...o coletivo importa mais do que o individual”.

A história demonstra que a ideologia progressista é pródiga em hipocrisia e cinismo.  Aos progressistas, principalmente os socialistas, o coletivo importa mais do que o individual, pois a voz do indivíduo se perde no vozerio. O indivíduo não possui valor algum. Quando contrariados, os progressistas reagem com injúrias e ofensas, o que denota inveja e falta de afeição. Um exemplo a ser considerado refere-se à reação de Karl Marx ao fato de que as ideias de seu contemporâneo Ferdinand Lassalle (1825-1864) tiveram mais aceitação junto ao proletariado alemão do que seu apelo no famoso “Manifesto Comunista”.  Na visão socialista de Lassalle a luta de classes adquiria uma outra perspectiva, pois acreditava que a disputa pelo poder iria sempre existir, daí a importância do Estado, a Constituição e o sufrágio universal para os trabalhadores. Outro ponto defendido por Lassalle também dizia respeito à primazia dos estados nacionais, de modo que o internacionalismo defendido por Marx e Engels fora completamente rechaçado.

Marx, em carta a seu amigo Engels em julho de 1862, referiu-se a Ferdinand Lassalle nestes termos: “Está completamente claro para mim agora que ele, como é provado por sua formação cranial e seu nariz, descende de negros do Egito (supondo-se que sua mãe ou avó não tenha cruzado com um negro). Agora esta união de Judaísmo e Germanismo com uma substância negra básica deve produzir um produto peculiar. A impertinência do camarada é também própria de Crioulo”. E o que dizer de Engels? Em se tratando de injúria racial, este não devia nada a seu amigo. Numa carta de 1887, ao se referir a Paul Lafargue, genro de Marx, que pleiteava uma vaga num zoológico situado num distrito de Paris, ele afirmou: “Estando em sua qualidade como preto, um grau mais próximo do resto do reino animal do que o resto de nós, ele é sem dúvida alguma o representante mais adequado desse distrito”. Pode-se inferir que a partir de casos como estes, fica patente a desumanidade daqueles que se arvoram em possuir o monopólio da virtude.
  
 LUGAR DE FALA
“...negros querem dissuadir outros negros de se expressarem”.

Posto isto, por que os progressistas se incomodam tanto com o fato de existirem negros conservadores? Ou seja, por que os progressistas se incomodam com negros que “acreditam que há uma ordem moral duradoura. [Que] essa ordem é feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante, e as verdades morais são permanentes”, conforme sentencia Russell Kirk (1918-1994)? Na crescente “espiral do silêncio” negros querem dissuadir outros negros de se expressarem, pois julgam que estes só possuirão legitimidade quando estiverem do lado certo da história, o das vítimas sociais, o único “lugar de fala”. Fora isso, o que resta é a mordaça e o insulto dos que praticam a “injúria do bem”. Mas ao conservador, seja negro ou branco, rico ou pobre, homem ou mulher, seu lugar de fala é a realidade, pois em síntese, “conservadorismo significa fidelidade, constância, firmeza. Não é coisa para homens de geleia”, como bem define o filósofo Olavo de Carvalho.


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