O MOLUSCO E O MITO DO “BOM LADRÃO” - OLHAR CONSERVADOR

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O MOLUSCO E O MITO DO “BOM LADRÃO”



por Delmo Fonseca

As Escrituras não mencionam os nomes dos dois malfeitores que foram crucificados com Cristo, “um à sua direita, e outro à sua esquerda”, conforme se encontra registrado nos quatro evangelhos (Mt 27.38; Mc 15.27; Lc 23.32 e 33; Jo 19.18). No período pós-apostólico, portanto, uma obra apócrifa intitulada Evangelho de Nicodemos, também conhecida como Atos de Pilatos, irá identificar os dois ladrões como Dimas e Gestas. Nesse caso, Dimas será reconhecido como aquele que repreendeu o outro meliante por suas blasfêmias contra o Redentor.  

Desde então, o mito do “bom ladrão” assumiu novas cores e diversos personagens foram laureados com este epíteto.  Pode-se destacar o anti-herói Robin Hood, de Alexandre Dumas, que roubava dos ricos para entregar aos pobres. As aventuras do “Príncipe dos ladrões” foram ambientadas na época das Cruzadas, século XIII, tendo à frente o rei Ricardo Coração de Leão.
Não se pode esquecer de mencionar “O Sermão do bom ladrão”, do Padre Antônio Vieira, que na Igreja da Misericórdia em Lisboa em 1655, diante do rei Dom João IV e toda sua Corte, incluindo os mais importantes ministros, proferiu seu discurso a partir da conduta de Dimas, que rogou a Jesus que se lembrasse dele no Paraiso. Vieira, então, passou a se referir aos ladrões que assaltam o Reino e não são punidos. Eis um trecho desse maravilhoso sermão:

“Não são só ladrões os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manhã, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas (juízes) e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar: ‘Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos.’ Ditosa Grécia que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e, no mesmo dia, ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província.”

O “Sermão do bom ladrão” é extenso, o que exige uma análise mais pormenorizada em outro espaço e contexto, mas o que vale destacar aqui é a denúncia que Vieira faz ao testemunhar as práticas corruptas dos que ocupavam cargos públicos sem o devido mérito, cujas consequências reverberam até os dias atuais. Tem-se o exemplo de uma Suprema Corte composta, em sua maioria, de ministros ineptos e baixa estatura moral. Tanto é verdade que ultimamente a sociedade brasileira se vê às voltas com o fato de ter que tolerar o Molusco se comportar como alguém que merece o Paraíso, porém sem o arrependimento de Dimas. O Padre Vieira, baseado em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, frisa que para os ladrões, “sem restituição do alheio não pode haver salvação”, e o ato da restituição "não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas”. Ou seja, não há exceção.

Em se tratando do Molusco, o caso é ainda mais grave, pois há notícias de que no seu “reinado” tirou-se dos pobres para entregar aos ricos via BNDES. Mas o que mais impressiona é a naturalidade com que o establishment encara este Robin Hood tupiniquim, a “alma mais honesta” destas plagas. A nossa sorte é que a realidade sempre se impõe, o que nos leva a crer que no final, muitos que se acharam Dimas, verão que não passaram de Gestas.  

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