TEMPOS SOMBRIOS - OLHAR CONSERVADOR

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

TEMPOS SOMBRIOS


 


por Delmo Fonseca

Ainda não chegamos ao fundo do poço, mas não tardará. É bem provável que estejamos, na atual conjuntura moral e cultural, à beira de um abismo. E segundo Nietzsche, “quando você olha longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.” Esse mesmo filósofo, ao final do século XIX preanunciou a ascensão do niilismo, que em termos gerais, é uma ideologia que considera infundados e destituídos de sentido as crenças e os valores absolutos.  Numa das tantas obras do mesmo Nietzsche encontramos a famosa afirmação "Deus está morto e fomos nós quem o matamos". Em outras palavras o filósofo alemão estava constatando que a partir da era iluminista, em que a razão ocupara o lugar da revelação no coração do homem, não havia mais espaço para o lastro da existência num ponto fixo, seguro e transcendente, não havia mais espaço para as verdades eternas. Os valores morais, por exemplo, não tinham mais significado essencial, pois o niilismo pressupõe a existência diante do NADA. E que significado tem o NADA?

Se o mundo levou ou não as palavras de Nietzsche a sério, o certo é que testemunhamos tempos muito estranhos. Hoje tudo parece virado de ponta-cabeça, a começar pelo empreendimento em desconstruir a moral cristã a fim de se estabelecer uma era pós-moral, ou seja, uma época destituída de interditos e limites éticos. Para tanto, os valores cristãos precisavam ser dinamitados em sua base. E esse foi um dos serviços prestados pelos iluministas ao se voltarem contra a Igreja muitos antes dos ideais da Revolução Francesa. Associado a isso vimos no desenrolar da história, meados do século XIX, o quanto o marxismo levou a cabo a mentalidade revolucionária que se opunha à moral cristã, vista como uma moral burguesa a ser combatida pelo proletariado. A luta de classes também ensejava numa prevalência de uma nova moral, a proletária. No entanto, os revolucionários tiveram que reconsiderar o papel da classe operária que se recusou a seguir o delírio socialista, e transformaram a moral proletária na moral dos intelectuais, que na prática é “terrivelmente” niilista. Temos como exemplo, nas primeiras décadas do século XX, a atuação dos teóricos da Escola de Frankfurt, o “Grande Hotel Abismo”, que viria revolucionar a mentalidade das gerações pós-guerra.

A partir da Revolução Cultural novas ideologias emergiram do abismo niilista. Desde o “É proibido proibir” ao “Meu corpo, minhas regras”, o mundo tem experimentado a transição de uma sociedade que buscava sentido e segurança para uma sociedade sem referência ou ponto fixo. A luta de classes fora substituída pelas lutas identitárias, ou seja, em vez burgueses x proletários têm-se opressores x oprimidos, de modo que nem mesmo a linguística escapara desse abismo. O NADA quer ser alguma coisa, quer se impor às custas da falsa ideia de que tudo é permitido, daí o fato de que seguir esse ideal niilista associado ao ímpeto revolucionário se configure como um caminho para a morte. Talvez seja esse o real desejo do ser humano ao marchar para o abismo. Tempos sombrios.





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