A FACE RELIGIOSA DO AMBIENTALISMO - OLHAR CONSERVADOR

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A FACE RELIGIOSA DO AMBIENTALISMO






por Delmo Fonseca

Nos últimos dias testemunhamos uma histeria coletiva e de alcance global em torno da floresta amazônica, a ponto de se fomentar “rusgas diplomáticas” entre o governo brasileiro e autoridades europeias. A intensão desse texto passa ao largo das discussões que pautaram a mídia, as redes sociais e até mesmo as conversas de botequim.  É certo que o pano de fundo ideológico suscita defesas apaixonadas de todos os lados. Razões econômicas e políticas vêm à baila a fim de sustentar argumentos em prol desta ou daquela posição. E quanto ao aspecto religioso, de que maneira podemos analisar a questão ambiental e seu reflexo na ordem social?

Leia-se paganismo toda vez que mencionarmos o ambientalismo como ideologia religiosa. E devido ao fato de que a ideologia de uma religião estará sempre correlacionada ao seu contexto histórico e social, devemos, ainda que ‘en passant’, aludir aos anos sessenta como o período embrionário de um movimento que nasceria nos anos noventa e, a reboque, aglutinaria outros movimentos com interesses afins como globalismo, feminismo e marxismo.

À primeira vista os desinformados reputam como teoria da conspiração quaisquer imbricamentos entre movimentos sociais, partidos políticos, grupos econômicos e movimentos religiosos. O desafio sempre estará em separar o joio do trigo. Ao conceber a natureza como divina, os antigos pagãos viam animais, plantas, rios, montanhas e astros como deuses. Tal crença é compartilhada pelos ambientalistas modernos, o que configura uma influência do pensamento oriental, principalmente o caráter animista da religião hindu. O resultado é que desde os anos noventa o Ocidente tem experimentado um ataque às suas bases judaico-cristãs, as quais concebem o homem como o centro da criação e com um mandato cultural outorgado pelo Criador.

Com o deslocamento da cosmovisão bíblica, o ambientalismo travestido de “politicamente correto” colocou a preservação da natureza como a principal pauta a ser discutida pelos organismos internacionais. Com o advento da Conferência Rio-92, também conhecida como Eco-92 ou Cúpula da Terra, um importante documento intitulado “A Carta da Terra” serviu de princípio norteador para a mudança de consciência que se seguiria. A partir dessa mudança novos valores foram forjados. Quando nos referimos ao imbricamento de ideologias como o marxismo e o feminismo, é que esses movimentos tiveram como pano de fundo a mudança de consciência atrelada à questão ambiental. Ao atribuir à natureza valores divinos, a Terra passa a ser tratada como Gaia, a Grande Mãe, que acolhe a todos em seu seio. Portanto, homens e mulheres, pedras e moluscos são seres codependentes desta deusa, o que reforça a cosmovisão feminista. Da mesma forma interessa à cosmovisão marxista um mundo em que a Terra pode ser compreendida apenas pelo seu aspecto materialista. Sendo assim, valores cristãos/burgueses precisam ser superados a fim de prosperar o relativismo cultural no que tange ao aborto e políticas de gênero, por exemplo.

Outro aspecto do ambientalismo é que este também possui raízes no Iluminismo, movimento que defendia o deísmo em detrimento do teísmo. Em termos mais genéricos o deísmo -diferentemente do teísmo que concebe a existência de um Ser transcendente e supremo -, não vê problemas em conceber a natureza como divina, a exemplo do filósofo Baruch Spinoza, para quem Deus e Natureza são a mesma coisa. A alusão ao Iluminismo se faz necessário dada a influência de outro filósofo, Jean-Jacques Rousseau, o qual propunha que o homem devia fazer um caminho de retorno à natureza.

O que não podemos perder de vista no contexto atual em que a pauta principal é a preservação da Amazônia e os incensados “povos da floresta”, é que para além dos interesses econômicos na riqueza do solo por parte de nações estrangeiras e outros interesses difusos ocultados pelas ONGs, há a questão religiosa como base de sustentação. Haja vista que está programado para os próximos dias em Roma o “Sínodo da Amazônia”, uma reunião convocada pelo papa sob o pretexto de refletir sobre o tema "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral". Os desdobramentos dessa reunião só saberemos depois, mas por enquanto, só nos resta fazer coro às indagações do Cardeal alemão Walter Brandmüller: “Há que se perguntar: o que a ecologia, a economia e a política têm a ver com o mandato e a missão da Igreja? E acima de tudo: que competência profissional e autoridade tem um sínodo eclesial de bispos para emitir declarações nesses campos?”

Ao criticar o “Instrumentum laboris”, documento elaborado para o encontro, Brandmüller destaca que as florestas da região amazônica vêm se declarando como um “locus theologicus”, pois “no contexto do chamado à harmonia com a natureza, fala-se até de diálogo com os espíritos”. O que o Vaticano ensaia por meio deste sínodo pode ser apenas a ponta do iceberg de uma nova consciência com fins a uma nova ordem social. A quem interessa esse retorno ao paganismo?

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Fontes:

“A ameaça Pagã”; Peter Jones; Editorial Cultura Cristã.

“Filosofia Verde”, Roger Scruton, É Realizações.

https://fratresinunum.com/2019/06/27/heretico-e-apostata-cardeal-brandmuller-excomunga-o-sinodo-da-amazonia.

https://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/carta-da-terra.html








2 comentários:

  1. Delmo, um irmão que há muito não tinha sequer notícia!... feliz demais em reencontrar seus escritos e ver a consistência dos mesmos!... um grande abraço do seu amigo Antônio Carlos (da velha e saudosa Pirapora)..

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  2. Grande amigo. Agradável surpresa. Muito feliz em saber que passou por aqui. Deu te abençoe.

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