CLEPTOCRACIA À BRASILEIRA - OLHAR CONSERVADOR

terça-feira, 27 de agosto de 2019

CLEPTOCRACIA À BRASILEIRA




por Delmo Fonseca

Esta crônica está sortida de clichês, a começar pelo conhecido brado de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo utilizado pelo grande cronista Sergio Porto:  "Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!". Muito antes de testemunharmos o sucesso da Operação Lava Jato, nossos músicos populares já cantarolavam outro clichê.: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão...”.  A generalização é uma tolice, mas o que deveria ser uma exceção lamentavelmente se tornou uma regra no Brasil. A ladroagem é quase um traço da nossa cultura, o que inevitavelmente explica o comportamento vergonhoso de uma parte expressiva da classe política.

Nenhum país sério possui bandido de estimação, mas por aqui homens sanguinários como o cangaceiro Lampião, o stalinista Marighella e, no presente, meia dúzia de socialistas ilustres, são elevados à categoria de heróis. Tanto o “rouba, mas faz…” de Adhemar de Barros - ex-governador paulista nos anos 40 e 50 do século passado – quanto a cantilena do “Lula livre”, só reforçam o fato de que o tal “jeitinho” brasileiro não passa de uma forma  velada de corrupção. E esse jeitinho busca brechas nas cortes de justiça, nas filas de bancos, no trânsito, nos hospitais e, principalmente, nas instituições públicas. Daí inferirmos que para uma parcela da população, “bandido bom é bandido vivo e ocupante de cargos públicos, isto é, cleptocratas”.

O Michaelis define cleptocracia como aquele “sistema político em que a corrupção em relação ao dinheiro público é tolerada ou admitida”. Já o jurista Modesto Carvalhosa, em sua obra "Da Cleptocracia à  Democracia em 2019", resume esse regime como um “governo de ladrões”. Para o escritor angolano Jose Eduardo Agualusa, “numa cleptocracia ideal, aquela com que todos os grandes bandidos sonham, eles conseguiriam não apenas tomar o controle do aparelho de estado, incluindo do sistema judicial, como alcançar o respeito e a admiração do povo. Nessa cleptocracia perfeita nada distinguiria um grande bandido de uma pessoa honesta a não ser a riqueza e a origem desta”.

Esse era o sonho dos nosso cleptocratas: tornar o Brasil um paraíso da bandidagem, onde se pudesse usar os royalties do petróleo para financiar um projeto político totalitário e de longo prazo. Para isso bastava contratar empresários amigos com o pretexto de realizar grandes obras como construções de refinarias e estádios de futebol, transposição de rios, patrocínio de artistas e distribuição de muitas bolsas famílias e cotas nas universidades. Aquele que por ventura ousasse se colocar no caminho desses cleptocratas seria execrado e teria o assassinato de sua reputação, ou seja, carregaria o peso do seguintes clichês: fascista, direitista etc.

Porém o improvável aconteceu: um grupo de procuradores e juízes criou uma força-tarefa a fim de enfrentar esse regime.  Políticos que se achavam acima do bem e do mal provaram que “a lei é dura, mas é a lei” (“dura lex, sed lex”), pois aqui nesses trópicos, parafraseando Fernando Sabino, sempre acreditou-se que para os cleptocratas “a lei é dura, mas estica” (“dura lex, sed látex”).

O Brasil tem cura? A boa notícia é que a sociedade pagadora de impostos dá sinais de que não deseja mais tolerar um “governo de ladrões”.  A maioria outrora silenciosa já sabe se manifestar e ocupar as ruas a fim de que estabeleça de fato uma democracia, “governo do povo”. Afinal, lugar de bandido é na cadeia, seja em Guantânamo ou em Curitiba. Esse seria um bom clichê.



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